Sofía Estévez y Valdés de Rodríguez

Sofía Estévez y Valdés de Rodríguez foi uma escritora e militante revolucionária cubana, nascida em 1848, em Porto Princípe, atual Camagüey, Cuba. Filha de José Antonio Estevéz e da escritora Maria de las Mercedes Valdés Mendoza (1820-1896). No ano de 1864, aos dezesseis anos, publicou seu primeiro poema no jornal oficial do governo espanhol em Cuba, El Fanal (1845-1898) e, aos dezoito anos foi reconhecida como autora de mérito na literatura cubana. Cofundou o jornal El Céfiro (1866-1868). Foi a única mulher poetisa incluída no livro Los poetas de la guerra: colección de versos escritos en la guerra de independencia de Cuba(1893), que conta com prólogo de José Martí. Para além da publicação literária, Sofía foi reconhecida como liderança nas lutas de independência cubana da coroa espanhola. Sua atuação política esteve intrinsecamente ligada à sua produção literária. Foi casada com o militar cubano, naturalizado estadunidense, capitão Mariano Rodríguez Zayas (?-1896) com quem teve duas filhas, Clemencia e Sofía. Foi exilada em Key West, Estados Unidos por seu envolvimento com a independência cubana.

Juventude Sofía aprendeu com seus pais a educação básica elementar, sua mãe lhe ensinou a ler, escrever, os princípios religiosos e a costurar. Ainda na juventude, revelou precoce inclinação para a literatura, iniciando sua trajetória autoral ainda na adolescência.

Obras e vida política Em 1866, em colaboração com Domitila García Domínico de Coronado, fundou o jornal El Céfiro (1866-1868), o primeiro jornal fundado e dirigido por mulheres em Cuba. Nesse espaço, veiculou significativa produção em prosa e verso. No mesmo jornal, publicou também os romances Maria e Alberto el trovador, ambos em formato de folhetim, além de ensaios e textos literários que alcançaram ampla circulação, sendo reproduzidos em diversos jornais cubanos. https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Album_Po%C3%A9tico.jpg A eclosão da Guerra dos Dez Anos, em 1868, marco das lutas independentistas cubanas, redefiniu profundamente sua trajetória. Sofía afastou-se momentaneamente da atividade literária para engajar-se na causa revolucionária, passando a ser reconhecida entre os insurgentes como “a poetisa patriota”. Nesse contexto, adotou o pseudônimo “Hija del Indio Bravo”, evocando imaginários indígenas associados à região de Camagüey. Sua produção poética desse período caracteriza-se pelo combinação do lirismo e do fervor político, expressando o ideal de liberdade e o amor à pátria, especialmente no poema A Cuba, como mostra o seguinte trecho: "I Cuba, Cuba, a quem adoro, Por quem meu coração bate de amor, Cuba, cujo teto é Céu azul e raios dourados...! Se aceitasses minhas lágrimas, Se compreendesses minhas mágoas, Se conhecesses meus tormentos, Quando penso com tristeza e melancolia, Que não és mais, minha Cuba, Nem mesmo uma sombra do que um dia foste... (...) VI Sobre Cuba vieram os ibéricos cheios de ira, Transformando em despojos negros Seus encantos. Pérfidos e traiçoeiros, Roubaram seus encantos... E sacrificaram seus filhos, Sem pensar, tolos, que um dia, A vingança clamaria a Deus Pelo sangue que derramaram...! VII O sangue, sim, que em torrentes Correu pela terra indígena... Sangue pelo qual Ele ainda pede aos céus Justiça para aqueles Pessoas: Quando exalaram seu último suspiro em tristeza, A esperança perdida, Sussurros que ao longe foram ouvidos, dilacerantes... Parece, ó Deus, que eles diziam Vingança, Cuba, vingança! (...) X Mas agora é a hora de o cubano Se levantar contra seu algoz, E corajosamente lançar fora o jugo Que sua mão lhe impôs: Abaixo! Abaixo o tirano...! Amaldiçoe sua crueldade! Queremos uma nova vida... Que nossa oração se eleve a Deus: Cuba está livre novamente, E viva sua independência!" O poema A Cuba se insere no contexto das lutas independentistas cubanas do século XIX, articulando um discurso lírico fortemente nacionalista, marcado por exaltação patriótica, denúncia da violência colonial e convocação à insurreição. A composição apresenta uma progressão temática: parte da idealização da pátria, passa pela construção de um passado harmônico, denuncia a ruptura violenta promovida pela colonização espanhola e culmina no apelo revolucionário. Esse poema apresenta uma visão da escravidão e do sistema de plantações em Cuba. O seguinte trecho alude à ausência de insurreições sangrentas por parte de pessoas escravizadas, como a ocorrida no Haiti, ele nega particularmente as tentativas de rebelião perto da cidade de Cárdenas e em Matanzas em 1843, bem como a repressão que se seguiu a esses levantes. "II Governo cruel e tirânico Jamais poderia surgir em vós, Que ousasse levantar Sua mão sobre nós: Nunca o sangue africano Manchou o véu de vossa honra; Nem vosso solo foi testemunha Das lágrimas amargas e infelizes, Com que o escravo amaldiçoa A vida, o mundo e o céu (...)". Com o fim do conflito, em 1875, Sofía estabeleceu-se em Havana, onde publicou a coletânea Lágrimas y sonrisas . Nesse período, casou-se com o capitão Manuel Rodríguez y Zayas do Exército Libertador. A retomada das hostilidades em 1895 conduziu novamente sua vida ao exílio e à instabilidade. Refugiou-se em Cayo Hueso, nos Estados Unidos, onde transformou sua residência em espaço de acolhimento para exilados cubanos engajados na causa independentista. Após a morte de seu esposo em combate, a autora retornou a Camagüey e assumiu, de maneira notável, o posto por ele anteriormente ocupado na guerrilha, participando ativamente das ações militares e chegando a ser ferida. Encerrada essa fase da luta revolucionária, enfrentou condições materiais adversas, marcadas por dificuldades econômicas.

Legado Sua relevância no campo literário e político foi também reconhecida em vida: em 1893, foi a única mulher incluída na antologia Los poetas de la guerra: colección de versos a la independencia de Cuba, publicada em Nova Iorque por José Martí. Sua produção intelectual foi preservada e difundida em diversas antologias póstumas, entre as quais se destacam El parnaso cubano (1906), Florilegio de escritoras cubanas (1913), Álbum poético-fotográfico de escritoras poetisas cubanas (1926), La poesía lírica en Cuba (1928) e Poetisas cubanas (1985), consolidando seu legado na tradição literária de Cuba.

Morte Sofía Estévez faleceu em 5 de março de 1901, sendo posteriormente consagrada como figura que articulou, em sua obra, a sensibilidade poética e o compromisso revolucionário.