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A corrida para construir data centers capazes de alimentar a inteligência artificial (IA) está impulsionando um mercado pouco óbvio: o de tintas e revestimentos industriais. Com empresas, como Microsoft, Google e Amazon, ampliando suas estruturas de computação, fabricantes de materiais de proteção veem a demanda crescer — mesmo quando o produto é quase sempre da mesma cor: cinza.

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A PPG, companhia de Pittsburgh (EUA), espera que suas vendas de tintas destinadas a data centers tripliquem neste ano em relação ao anterior. A projeção supera com folga o desempenho geral da empresa, cujas vendas totais cresceram 7% e chegaram a US$ 4,5 bilhões (cerca de R$ 24 bilhões) no trimestre mais recente.

“Eu nunca vi um boom tão grande quanto este”, afirmou Jenn Solcz, vice-presidente da divisão de revestimentos protetores e marítimos da PPG nas Américas.

Tinta que protege estruturas contra incêndios

- Parte da demanda vem de produtos desenvolvidos para aumentar a segurança das instalações. Um dos destaques da PPG é o Steelguard 951, revestimento que se expande quando exposto a temperaturas elevadas e forma camada espessa, capaz de retardar a chegada do calor ao aço;

- Em teste realizado no centro de inovação da empresa, pesquisadores direcionaram chamas a painéis metálicos cobertos pelo produto. A tinta, aplicada originalmente em camada de cerca de um milímetro, transformou-se em crosta escura com quase um centímetro de espessura;
- A expansão cria barreira que ajuda a impedir que o aço aqueça e perca resistência durante um incêndio. Segundo a PPG, o Steelguard pode proteger estruturas metálicas por até quatro horas, dando às pessoas mais tempo para deixar o local;
- O risco de incêndio em data centers não se limita aos servidores. Geradores de energia de reserva, baterias e instalações elétricas próximas também podem ser fontes de fogo, explicou Paul Fenton, químico e engenheiro da companhia;
- Os revestimentos têm outras funções importantes. Eles podem proteger estruturas metálicas contra ferrugem, reduzir o acúmulo de eletricidade estática e limitar interferências elétricas entre equipamentos. Pisos especiais, por exemplo, ajudam a evitar que descargas danifiquem máquinas ou provoquem incêndios.
Data centers ampliam mercado de revestimentos
A PPG percebeu a oportunidade há cerca de três anos, depois do lançamento do ChatGPT e da multiplicação de anúncios de novos data centers e fábricas de chips. Contratantes, fabricantes de estruturas metálicas e fornecedores de equipamentos passaram a disputar projetos ligados à expansão da infraestrutura de IA.
A empresa organizou equipes dedicadas ao setor de tecnologia e começou a trabalhar com arquitetos, engenheiros e construtoras antes mesmo do início das obras. A estratégia busca incluir seus produtos nas listas de materiais aprovados para cada projeto desde as etapas iniciais.
Em abril, a companhia apresentou um pacote de soluções voltado a data centers. A oferta inclui revestimentos para proteger estruturas de aço contra incêndios, primers que ajudam a prevenir a corrosão, pisos que reduzem riscos associados à eletricidade estática e materiais destinados a bloquear interferências elétricas.
A PPG também fornece revestimentos para mais de 75 tipos de componentes usados nessas instalações, incluindo carcaças de câmeras de segurança e equipamentos de refrigeração.
A empresa afirma que seus produtos já foram usados em data centers do Brasil à China. Mais da metade das oportunidades comerciais, porém, está nos Estados Unidos, que concentram cerca de 5,5 mil instalações desse tipo, segundo o relatório Artificial Intelligence Index, da Universidade Stanford (EUA).
Corrida para construir data centers capazes de alimentar a inteligência artificial (IA) está impulsionando um mercado pouco óbvio: o de tintas e revestimentos industriais – Imagem: shihabsarkar/Shutterstock
O setor também beneficia concorrentes. A Sherwin-Williams, maior rival da PPG, informou que seus produtos são usados em diversas áreas dos data centers, das vigas metálicas às estruturas que abrigam servidores. Em julho, a presidente-executiva da companhia, Heidi Petz, afirmou que as vendas da divisão de revestimentos protetores e marítimos haviam crescido em faixa percentual de dois dígitos na casa das dezenas em relação ao ano anterior, impulsionadas, entre outros fatores, pela construção dessas instalações.
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Por que quase tudo é cinza?
Apesar da sofisticação dos produtos, o resultado visual costuma ser discreto. A maior parte dos revestimentos é vendida em diferentes tons de cinza, aplicados sobre concreto e aço, que também têm aparência semelhante.
A razão é simples: data centers são construídos principalmente para abrigar máquinas, e não para receber pessoas. Por isso, a aparência dos ambientes internos raramente é prioridade para proprietários, arquitetos e engenheiros.
Matthew Giddings, profissional da empresa imobiliária comercial JLL, que trabalha com a gestão de data centers, estima que os revestimentos possam custar entre US$ 3 milhões e US$ 8 milhões (cerca de R$ 16 milhões a R$ 43 milhões) em um único edifício. Embora o valor represente apenas pequena parte do custo total da construção, ele ajuda a dimensionar o mercado criado pela expansão da infraestrutura de IA.
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Há exceções à predominância do cinza. Tubulações de água gelada podem receber pintura azul, enquanto canos ligados aos sistemas de combate a incêndios costumam ser vermelhos, facilitando a identificação por equipes de manutenção. Em resposta à pressão de comunidades locais para que os empreendimentos tenham aparência menos industrial, algumas empresas também passaram a adicionar cores às fachadas.
A PPG, fundada em 1883 como Pittsburgh Plate Glass Company, originalmente era uma fabricante de vidro. Com o tempo, tornou-se uma das maiores empresas de revestimentos do mundo e passou a atender setores, como os de automóveis, aviões e embalagens.
A companhia prefere, inclusive, chamar seus produtos de “revestimentos”, em vez de simplesmente tintas. As soluções podem combinar um primer para aderir ao aço, uma camada funcional de proteção e um acabamento final.
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Expansão da IA enfrenta obstáculos
Apesar das perspectivas positivas, o avanço do mercado não está garantido. Alguns projetos de data centers sofreram atrasos enquanto aguardam acesso à energia, segundo a PPG. A escassez de transformadores e de outros equipamentos elétricos também tem prolongado cronogramas de construção.
Além disso, a resistência de comunidades à instalação de novos empreendimentos tornou-se desafio para o setor. A PPG avalia que os revestimentos destinados a data centers ainda representam parcela pequena de suas vendas, mas espera que esse mercado cresça várias vezes mais rápido do que outros segmentos de infraestrutura.
A expansão da IA, portanto, não movimenta apenas empresas que desenvolvem modelos ou fabricam chips. Ela também cria oportunidades para fornecedores de materiais e componentes essenciais à construção e à operação dos enormes edifícios que sustentam essa tecnologia.
Rodrigo Mozelli
Rodrigo Mozelli é jornalista formado pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP) e, atualmente, é redator do Olhar Digital.
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Tags: data centers Inteligência Artificial


