Língua geral dos índios das Américas é um manuscrito anônimo e sem data, provavelmente do século XVIII, que contém um vocabulário em língua tupi. É um dos raríssimos registros conhecidos da língua geral paulista e encontra-se conservado na Biblioteca Nacional do Brasil. O manuscrito foi descoberto em 2001 por Aryon Rodrigues e Ruth Monserrat. Os termos em português estão impressos no lado esquerdo, com suas traduções em tupi manuscritas no lado direito, seguidas novamente pelos equivalentes em português, também manuscritos. Os termos abrangem uma ampla variedade de campos lexicais e há evidências que sugerem que o documento pode ter passado de mãos lusófonas para mãos francófonas. O manuscrito está desgastado e manchado, o que pode dificultar sua leitura. Seu tamanho sugere que foi destinado a missionários, que podem ter se comunicado com apenas uma compreensão fragmentária da língua, indicando que a comunicação pode ter ocorrido por meio de um pidgin. O texto apresenta muitas características da língua geral paulista, bem como influências do português sobre o tupi.
História Sem indicação de autor ou data, mas provavelmente do século XVIII, o documento pertenceu a Camilo Castelo Branco. A frase final do vocabulário, "dans leur langue", também sugere que um dos proprietários posteriores do documento tinha o francês como língua de referência. O manuscrito apresenta uma combinação de texto impresso e anotações manuscritas e supõe-se que a lista tenha sido impressa em uma das tipografias de Lisboa, Coimbra ou Porto, sendo posteriormente distribuída a missionários antes de sua partida para as Américas, Ásia ou África. Língua geral dos índios das Américas foi apresentado pela primeira vez em 2001 por Aryon Rodrigues e Ruth Monserrat em uma comunicação no II Colóquio sobre Línguas Gerais; o título da apresentação foi "Um novo antigo documento da Língua Geral Paulista". O documento encontra-se na seção de manuscritos da Biblioteca Nacional do Brasil, catalogado sob o número 10,01,010.
Estrutura
O documento está encadernado em couro, trazendo o título "Vocabulário da língua geral" na capa, e no topo da primeira página, o cabeçalho "Língua geral dos índios das Américas". O vocabulário compreende sete folhas não numeradas e contém 440 entradas em português. Os termos em português estão impressos no lado esquerdo, enquanto à direita os termos equivalentes em tupi são manuscritos, seguidos de suas traduções também manuscritas para o português. Para todas as entradas com equivalente em tupi, o escriba escreveu o termo em tupi e depois a frase "quer dizer", seguida da tradução para o português. No final da última página há uma nota em francês, escrita em caligrafia distinta da usada no restante do manuscrito: "dans leur langue ils ne content / que jusqu'a' neuf", sugerindo que o documento em algum momento passou de mãos lusófonas para mãos francófonas. Seu conteúdo abrange vários campos lexicais, incluindo termos relacionados à genealogia, anatomia humana, sensações físicas e emocionais, estado civil, verbos de ação, nomes de animais, pronomes pessoais e meios de transporte.
Deos – Tupan quer dizer Deos Pai – ruva q.er dizer Pai Mãi – su q.er dizer Mai O manuscrito apresenta várias deficiências, está desgastado e manchado, tornando algumas seções ilegíveis, enquanto as porções restantes são difíceis de ler. Há ainda inserções e correções a lápis em caligrafia distinta da do escriba original. Além disso, certas palavras em português não possuem tradução equivalente para o tupi. Na contracapa interna, encontra-se uma inscrição quase apagada que diz: "Talvez exemplar unico / serviam-se destes resumos / linguisticos os jesuitas qdo / pregavam na America / C. Cast. Br."
Análise O pequeno tamanho do documento o torna adequado para ser carregado no bolso ou em bolsa de viagem, indicando que, provavelmente, se destinava a missionários. Essas pessoas fariam amizade com informantes locais que, por sua vez, os ajudariam a preencher a coluna da direita com termos da língua local. O espaço em branco acima da coluna de termos na primeira página sugere que o mesmo foi deixado intencionalmente para que o nome da língua em estudo fosse anotado ali. Os usuários dessa lista de palavras que tiveram apenas contato limitado com falantes nativos provavelmente desenvolveram uma compreensão fragmentada da língua, indicando que a comunicação pode ter ocorrido por meio de um pidgin, semelhante aos vocabulários usados durante o início do período colonial.
Língua O vocabulário é um dos poucos registros conhecidos da língua geral paulista, exibindo muitas características próprias dela. Uma delas é o uso da letra "v" em várias palavras tupi onde os vocabulários jesuítas usariam "b", como em avati ("centeio, milho, trigo"). Há ainda evidência da evolução fonológica de /ɨ/ para /u/, como visto em uvû ("terra", correspondente a yby no tupi antigo) e vutû ("vento", correspondente a ybytu no tupi antigo). O documento reflete também a influência do português, como demonstrado por entradas como aivenser ("vitória", do português "vencer"), cavarâ ("cabra"), cavarû ("cavalo"), caranderû ("ovelha", de "carneiro"), rea ("rei"), sapatû ("sapato"), sevorâ ("cebola") e xecambarara ("amigo", de "camarada").
Ver também Le langaige du Bresil
Notas e referências
Notas ===Referências===
Bibliografia Lee, M. Kittiya (2005). Conversing in Colony: The Brasílica and the Vulgar in Portuguese America, 1500–1759 (em inglês). Baltimore: Universidade Johns Hopkins. Cópia arquivada em 27 de março de 2025 Leite, Fabiana Raquel (2013). A Língua Geral Paulista e o "Vocabulário Elementar da Língua Geral Brasílica". Campinas: Universidade Estadual de Campinas. doi:10.47749/T/UNICAMP.2013.920777. Cópia arquivada em 4 de outubro de 2024 Lemos Barbosa, Antônio (1956). Curso de tupi antigo: gramática, exercícios, textos. Rio de Janeiro: Livraria São José. Cópia arquivada em 12 de junho de 2025
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