Como Trump está desmontando a diplomacia americana

Presidente tem substituído diplomatas de carreira por amigos, familiares e doadores de campanha nas embaixadas do país. Crédito: Carol Marins

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No portão da Casa Branca, uma multidão de jornalistas chineses era autorizada a entrar na sede do Executivo para cobrir a visita do presidente da China, Xi Jinping. Na rua, vários jornalistas americanos eram impedidos de entrar na Casa Branca por ordem do presidente americano, Donald Trump.

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A cena na Pennsylvania Avenue na manhã de quinta-feira, 24, capturou uma semana surreal na vida de Washington. O presidente dos Estados Unidos barrou repórteres americanos porque os classificou como uma ameaça à segurança nacional, enquanto recebia jornalistas chineses que respondem à ditadura comunista de Pequim.

A escalada das contradições:

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Era o mesmo presidente que veicula anúncios de televisão pagos pelo governo federal prometendo impedir que os EUA se tornem socialistas ou comunistas, na mesma semana em que teve uma reunião amistosa com o prefeito de Nova York, o democrata socialista Zohran Mamdani, e estendeu um tapete vermelho literal para o presidente comunista da China.

O mesmo presidente que trava uma guerra econômica contra o primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, enquanto convida o presidente da Rússia, Vladimir Putin, para visitar seu clube de golfe na Flórida.

O presidente dos EUA, Donald Trump, recebeu o presidente da China, Xi Jinping, na Casa Branca. Foto: Jacquelyn Martin/AP

Na disputa épica entre democracia e autocracia, Trump há muito tempo dá a impressão de que pode estar do outro lado. Mas raramente isso ficou tão evidente quanto nesta semana, enquanto pune veículos de imprensa por serem “negativos” demais em relação a ele e, ao mesmo tempo, abraça Xi e Putin, dois dos principais líderes autoritários do mundo, cujos governos reprimem brutalmente a liberdade de expressão.

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A chegada de Xi à Casa Branca foi celebrada com pompa e circunstância, mas não foi divulgada pelas redes de televisão americanas, que ainda boicotavam a cobertura até que a equipe de Trump se comprometesse por escrito a permitir que as câmeras da CNN voltassem a fazer parte do rodízio.
Repórteres da CNN, da MS NOW e do Politico que inicialmente foram impedidos de entrar na Casa Branca na manhã de quinta-feira, apesar de uma ordem judicial, puderam entrar mais tarde. No entanto, até o fim da tarde, a equipe de Trump ainda não havia permitido que a CNN voltasse ao grupo responsável por fornecer diariamente imagens do presidente.
Mesmo enquanto Trump se irritava porque seu dia de pompa cuidadosamente orquestrado não era exibido na televisão, ele desfrutava da presença de Xi e o enchia de elogios, sem fazer menção às questões de direitos humanos que presidentes anteriores levantaram ao se reunir com autoridades chinesas.
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“Desde minha primeira eleição, em 2016, o presidente Xi e eu construímos uma amizade, uma amizade realmente grande, na verdade, baseada no respeito mútuo e nos interesses vitais de nossos povos”, disse Trump no Grand Foyer da Casa Branca.
Mais tarde, ele se mostrou satisfeito ao levar seu grande amigo para conhecer o novo salão de baile da Casa Branca, que está em construção, e exibiu sua provocativa fotografia de um autopen (caneta automática utilizada para reproduzir assinaturas autênticas) destinada a representar seu antecessor, Joe Biden.
Trump espera receber Putin de maneira semelhante em breve. O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, anunciou nesta semana que Trump havia convidado o líder russo, antes isolado diplomaticamente, para participar da reunião anual do G20 em Miami, em dezembro. Seria a primeira participação de Putin no encontro desde 2019, antes da invasão em grande escala da Ucrânia.
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A cúpula está prevista para ocorrer no Trump National Doral Miami, onde o presidente tentou sediar uma reunião do G7 em seu primeiro mandato, mas recuou após reclamações de republicanos de que haveria conflito de interesses - reclamações que não foram ouvidas desta vez.
Enquanto Putin foi expulso do G7 e de outros grupos por causa da anexação da Crimeia, em 2014, Trump tem demonstrado interesse em trazê-lo de volta ao cenário internacional.
O Tribunal Penal Internacional emitiu um mandado de prisão contra Putin por acusações de crimes de guerra em 2023, mas Trump ignorou isso ao convidar o russo para o Alasca no ano passado - e, nesta semana, criticou o tribunal em um discurso na Assembleia-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), chamando-o de “um grupo de pessoas malignas”, enquanto seu governo tenta desmantelar a instituição.
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A afinidade de Trump com déspotas, tiranos e autocratas há cerca de dez anos intriga líderes democráticos e diplomatas e reorienta a política externa americana. Ele elogia efusivamente nomes como Kim Jong-un, da Coreia do Norte (“nós nos apaixonamos”), Abdel Fattah el-Sisi, do Egito (“meu ditador favorito”), Mohammed bin Salman, da Arábia Saudita (“eu gosto demais dele”), Recep Tayyip Erdogan, da Turquia (“um grande amigo meu”) e Nayib Bukele, de El Salvador (“um presidente e tanto”).
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Em contraste, ele frequentemente entra em conflito com líderes de aliados tradicionais, como Canadá, Reino Unido, França, Alemanha e Itália. No ano passado, chamou o presidente democraticamente eleito da Ucrânia, Volodmir Zelenski, de “ditador sem eleições”, sem manifestar preocupações semelhantes em relação a Putin, cujas eleições são amplamente documentadas como fraudadas. No ano passado, os EUA votaram ao lado de Coreia do Norte, Belarus e Sudão contra uma resolução da ONU que condenava a invasão russa da Ucrânia e, mais recentemente, Trump tem buscado se aproximar do ditador de Belarus, Aleksandr G. Lukashenko.
No âmbito doméstico, Trump frequentemente entra em conflito com a imprensa americana, chamando jornalistas de “inimigos do povo”, expressão usada por Josef Stalin para condenar dissidentes ao Gulag (sistema de campos de trabalho forçado criado e administrado pelo governo da União Soviética).
Mais do que qualquer presidente americano dos tempos modernos, Trump promoveu uma ampla campanha contra a imprensa independente por meio de processos judiciais de bilhões de dólares, pressão sobre a Comissão Federal de Comunicações, intimações a repórteres, expulsão da Associated Press do grupo de imprensa da Casa Branca e restrições que efetivamente obrigaram repórteres a deixar o Pentágono.
Trump pareceu não se incomodar na quinta-feira com as mensagens contraditórias transmitidas ao receber jornalistas estatais chineses ao mesmo tempo que tentava expulsar veículos de imprensa americanos como parte do que chamou de sua “proibição da imprensa livre”. Por outro lado, ele pareceu incomodado com o fato de que o confronto ainda não resolvido significava que as câmeras das redes de televisão que participavam do boicote não transmitiriam as festividades para o país.
Em uma publicação nas redes sociais no fim do dia, Trump elogiou Xi como “o Altamente Respeitado Presidente da China” e bajulou “sua linda esposa, Madame Peng”, enquanto acusava a CNN e a MS NOW de “NÃO TEREM CREDIBILIDADE” e serem “notícia falsa”. Um informe do grupo de imprensa da Casa Branca indicou que, em determinado momento do dia, Trump “fez uma piada sobre como os chineses tinham o grupo de imprensa mais amigável”.
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O que, evidentemente, depende da definição de amigável. A China exerce controle rígido sobre sua imprensa e mantém pelo menos 111 jornalistas e trabalhadores da mídia presos, segundo a Repórteres Sem Fronteiras, o que faz do país “a maior prisão de jornalistas do mundo”. Dos 180 países classificados pela organização em seu ranking de liberdade de imprensa, a China ocupa quase a última posição, em 178º lugar, à frente apenas de Coreia do Norte e Eritreia. Os EUA caíram para a 64ª posição durante o governo Trump.
“Trump não quer apenas se reunir com Xi - ele quer copiá-lo”, escreveu nas redes sociais o senador Chris Coons, democrata de Delaware e integrante de alto escalão do Comitê de Relações Exteriores do Senado, citando ataques à imprensa, a politização do sistema de Justiça e a expulsão de servidores públicos.
Até alguns republicanos, embora não questionassem abertamente a proibição de Trump à imprensa, demonstraram decepção com o fato de o presidente, ao buscar estreitar relações com o líder de um dos maiores parceiros comerciais dos EUA, estar tão disposto a bajular e homenagear Xi enquanto ignorava o histórico de repressão estatal da China.
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“Durante cada minuto de diálogo, nosso comandante em chefe deve ter em mente que seu convidado é um ditador brutal, não eleito e opressor, que busca dominar seus vizinhos e cujo enorme arsenal militar está diretamente voltado contra os EUA”, disse o senador Roger Wicker, republicano do Mississippi, que preside o Comitê de Serviços Armados do Senado.
Essa, porém, não era a mensagem enfatizada na Casa Branca, onde os assessores do presidente buscaram, nesta semana, substituir os veículos de imprensa que Trump tentou barrar ao lançar sua própria “Trump TV” online, uma forma de televisão estatal que Xi provavelmente reconheceria. Certamente, essa é uma maneira de Trump ter seu próprio grupo de imprensa mais amigável.
Este texto foi traduzido com o auxílio de ferramentas de Inteligência Artificial e revisado por nossa equipe editorial. Saiba mais em nossa Política de IA.
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