Ilca Maria Estevão

De símbolo de opressão a instrumento de liberdade, sutiã ganha as passarelas de Prada, Margiela e Fendi

Bianca Tôrres, Ilca Maria Estevão

25/09/2026 18:00

Victor VIRGILE/Gamma-Rapho via Getty Images

Por décadas, o sutiã ocupou um lugar controverso no guarda-roupa feminino. Se, nos anos 1960 e 1970, a peça foi associada aos protestos feministas e à ideia de libertação do corpo, hoje ela ganha um significado diferente: deixou de ser apenas uma roupa íntima e passou a funcionar como uma peça autônoma. Nas passarelas internacionais, o movimento aparece de forma cada vez mais evidente. Em Milão, grifes como Prada e Fendi levaram o sutiã para fora da função tradicional, enquanto a Maison Margiela também explorou a peça como parte central do visual. A proposta acompanha uma tendência mais ampla observada nas coleções recentes: a valorização de produções menos rígidas, assimétricas e aparentemente imperfeitas.

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Fendi primavera/verão 2027

Protestos feministas

A relação entre o sutiã e o feminismo é antiga, embora parte dessa história tenha sido simplificada ao longo do tempo. A imagem de mulheres queimando sutiãs ficou associada aos movimentos feministas dos anos 1960 e 1970, mas o episódio que consolidou esse imaginário, durante um protesto contra o concurso Miss America, em 1968, nos Estados Unidos, não envolveu uma queima efetiva da peça.

Durante o protesto do Women’s Liberation Movement contra os padrões de beleza impostos pelo concurso, cerca de 400 ativistas jogaram sutiãs, cintas, saltos altos e maquiagens em uma “Lixeira da Liberdade” como ato simbólico de libertação.

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Sutiãs, saltos e outros itens foram descartados no protesto

Nenhum fogo foi aceso, pois a polícia local proibiu qualquer incêndio em espaço público. No entanto, a imprensa da época comparou o descarte desses objetos à queima de cartões de alistamento militar da Guerra do Vietnã, criando uma manchete sensacionalista que imortalizou a queima de sutiãs como slogan feminista.

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Protesto feminista nos Estados Unidos, em 1968

Ainda assim, o sutiã se tornou um símbolo recorrente das discussões sobre os padrões impostos ao corpo feminino. A ideia de abandonar a lingerie representava, naquele contexto, uma rejeição às expectativas sociais sobre como as mulheres deveriam se vestir e se apresentar.
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Cartaz escrito “Poder feminino”
Sutiãs protagonizam passarelas
Se, historicamente, a libertação feminina foi associada à ideia de abandonar o sutiã, a moda contemporânea apresenta outra possibilidade: usar a peça porque se quer usá-la e também decidir quando ela deixa de ser íntima para se tornar parte do outfit. A peça continua cumprindo uma função prática para muitas mulheres, seja pela sustentação ou pelo conforto proporcionado por determinados modelos. A diferença está na possibilidade de incorporá-la à produção como qualquer outra roupa.
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Transparência e all-black
Na Semana de Moda de Milão, grifes como Prada, Fendi e Maison Margiela levaram a lingerie para o centro das produções. O movimento acompanha uma transformação mais ampla na moda, que tem deixado de lado a necessidade visuais excessivamente polidos para valorizar assimetrias, sobreposições inesperadas, cabelos naturais e construções aparentemente imperfeitas.
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Peça ganha destaque nas passarelas
Na coleção de primavera/verão 2027 da Prada, a ideia aparece de maneira literal. Um dos visuais traz um sutiã preto de renda usado sozinho, combinado a uma saia vermelha de cintura baixa. A escolha conversa com uma das características mais marcantes da coleção: a valorização de uma aparência menos controlada.
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Top com formas geométricas
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Sobreposição de top com camisa
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Desfile aconteceu em Milão nesta terça-feira (22/9)
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Todos os looks da coleção tinham saias
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Prada primavera/verão 2027
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Prada primavera/verão 2027
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A Fendi também levou a peça para fora do território tradicional da roupa íntima. Em um dos looks, um sutiã verde-claro aparece diretamente sobre a pele e é combinado a um blazer preto de mangas amplas e uma peça de cetim na mesma tonalidade.
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Desfile Fendi primavera/verão 2027
Na Maison Margiela, a proposta ganha outro significado. Um sutiã vermelho de renda aparece à mostra sob uma peça azul-marinho usada de maneira desconstruída, com a parte superior aberta. O resultado aproxima a lingerie de uma das linguagens mais reconhecíveis da maison: a desconstrução.
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Peça em tonalidade vibrante
Nesse caso, o sutiã funciona quase como uma ruptura dentro da própria construção do outfit. A lingerie, que historicamente deveria ficar sob as demais camadas, passa a ser justamente um dos elementos que chamam atenção.
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Maison Margiela primavera/verão 2027

