Quando eu trabalhava oito horas por dia, o ônibus era uma das minhas salas de estudo. Não tinha mesa, não tinha silêncio, e o motorista não fazia questão nenhuma de desviar de buraco. Mesmo assim, muita questão que eu resolvi naquela época foi no celular, sentado no banco do fundo.Eu não fazia isso porque achava bonito. Fazia porque não tinha outra opção. Quem trabalha o dia inteiro não ganha tempo livre de presente; precisa ir catando os pedaços que sobram, e o trajeto até o trabalho era um desses pedaços.Por isso eu não sou da turma que manda jogar o celular fora. Ele me ajudou a passar. Mas eu também vejo, toda semana, gente que jura que estuda pelo celular e, na prática, passa o trajeto inteiro pulando de aplicativo em aplicativo.E o brasileiro tem motivo de sobra para se perder. Uma pesquisa da Bain & Company mostrou que, enquanto a média mundial de uso da internet é de 6h38 por dia, o brasileiro fica 9h13 conectado, sendo 3h37 só em redes sociais. O curioso é que 28% dos entrevistados disseram querer diminuir esse tempo, e o motivo mais citado foi a distração causada pelos estímulos digitais (35%). Ou seja, a gente sabe. Só não consegue parar.Gloria Mark, professora da Universidade da Califórnia, estuda há mais de vinte anos quanto tempo as pessoas ficam numa tela antes de trocar de tarefa. Em 2004, a média medida era de dois minutos e meio; alguns anos depois, caiu para uns 75 segundos; hoje, está em 47 segundos. E tem um dado pior: quando a atenção é desviada de uma tarefa, a pessoa leva cerca de 25 minutos para voltar a se concentrar nela.Pense nisso aplicado ao seu estudo. Você abre a aula no celular, chega mensagem no grupo da família, você responde, aproveita para ver um story e volta para a aula. Pelo relógio, você estudou 40 minutos. Pela cabeça, talvez dez.Muita gente acha que dá conta de fazer as duas coisas ao mesmo tempo. A pesquisadora discorda: tirando raríssimas pessoas, multitarefa não existe; o que acontece é a atenção pulando muito rápido de uma coisa para outra. E cada pulo cobra um preço. No estudo, esse preço é o fio do raciocínio. Você volta para a aula e o professor já está no exemplo seguinte, sem você ter entendido o anterior.O celular é ótimo para o que é curto e ativo, e o melhor exemplo são as questões. Resolver uma questão obriga você a puxar a informação da memória, e esse esforço de lembrar fixa o conteúdo. Numa grande revisão de pesquisas sobre técnicas de estudo, liderada pelo psicólogo John Dunlosky, a prática por testes ficou entre as técnicas mais bem avaliadas. Uma questão leva dois, três minutos. Cabe entre um ponto e outro, na fila do banco, nos dez minutos que sobram do almoço. Se o ônibus freia e você perde o fio, perdeu uma questão. Numa aula, teria perdido o raciocínio inteiro.Só tem um detalhe: questão sem análise do erro vira passatempo. Quando errar, leia o comentário, entenda por que a alternativa certa é a certa e, depois, registre esse erro no seu caderno. É desse registro que sai a sua revisão nas semanas seguintes.Revisar também funciona: reler seus resumos, passar flashcards, rever os erros que você anotou. É conteúdo que você já viu, então a interrupção custa menos. E a revisão é a parte do estudo que eu considero inegociável em qualquer dia, porque é nela que o aprendizado acontece. Na aula, você só entende. Se o dia apertou e não sobrou tempo para sentar à mesa, fazer suas questões de fixação no celular já garante que aquele dia não foi perdido.Dá para assistir videoaula pelo celular também, desde que você cumpra duas condições. A primeira é desativar as notificações dos outros aplicativos antes de dar o play, para nenhuma mensagem te tirar da aula no meio da explicação. A segunda é acompanhar a matéria com material físico: a apostila aberta do lado e o caderno para anotar à mão. Com a caneta na mão, você é obrigado a prestar atenção para conseguir escrever, e o celular vira só a tela da aula, não um convite para trocar de aplicativo. Pause quando precisar anotar; a aula espera você, e o caderno no fim mostra se você acompanhou de verdade. Só que isso pede mesa e algum silêncio. No ônibus, sacudindo, fica difícil.Agora, aula assistida do jeito que a maioria assiste, picada em pedaços de cinco minutos entre uma notificação e outra, quase nunca rende. Conteúdo novo pede atenção contínua, e o celular com tudo ligado é justamente o que tira isso de você. O mesmo vale para aula rodando em velocidade dobrada enquanto você lava a louça ou responde mensagem: o som entra, o conteúdo não.Também não conta como estudo salvar post de dica, passar a noite no grupo de WhatsApp discutindo quando sai o edital ou ler comentário sobre a banca. Eu sei que dá a sensação de estar fazendo alguma coisa pelo seu objetivo. Mas sensação não marca gabarito.Comece olhando o relatório de tempo de uso do seu celular, que tanto o Android quanto o iPhone mostram nas configurações. Muita gente leva um susto ao ver quantas horas foram para redes sociais numa semana em que jurava não ter tempo para estudar. Não é para se culpar; é para saber de onde dá para tirar tempo.Depois, decida o que vai fazer antes de desbloquear a tela. “Vou fazer 15 questões de português” é um plano. “Vou dar uma estudada” é a porta de entrada para o Instagram. É a mesma lógica do ciclo de estudos: quem senta sabendo o que vai fazer perde menos tempo e procrastina menos.Por fim, coloque obstáculo entre você e a distração. A própria Gloria Mark sugere esconder os aplicativos dentro de pastas, onde dá mais trabalho encontrá-los. Eu iria além: deixe o aplicativo de questões na tela inicial, tire as redes sociais de lá e ative o modo não perturbe enquanto estiver estudando. Parece pouco, mas cada passo a mais até o Instagram é uma chance de você desistir de abrir.E o mais importante: o celular é reforço. Ele aproveita o tempo morto do dia, mas não substitui as duas horas diárias de estudo de verdade, com material aberto, atenção inteira e revisão no fim. No meu caso, o ônibus ajudava. O que me aprovou foram as horas na mesa e os fins de semana em que eu compensava a semana corrida.Na próxima vez que você pegar o celular no ônibus, repare em qual aplicativo abriu primeiro. Essa é a resposta.Fontes: Bain & Company, Consumer Pulse (2025); Gloria Mark, “Attention Span” (2023); Dunlosky et al., “Improving Students’ Learning With Effective Learning Techniques”, Psychological Science in the Public Interest (2013).✅Fique por dentro das principais notícias do dia no Brasil e no mundo. Siga o canal do R7, o portal de notícias da Record, no WhatsApp









