O esquema bilionário de roubo de relógios de luxo incomoda compradores, marcas e a polícia no Brasil, a ação dos ladrões encontra-se em transformação após prisões

O esquema bilionário de roubo de relógios de luxo incomoda compradores, marcas e a polícia no Brasil, a ação dos ladrões encontra-se em transformação após prisões — Foto: Gui Albuquerque

Em julho de 2025, Gabriel Pedroza, 25, fazia compras em uma farmácia na Zona Sul de São Paulo quando foi rodeado por policiais. Havia meses ele era procurado pelo roubo de um relógio Rolex na Vila Olímpia, região oeste da capital. A vítima foi o deputado estadual Delegado Olim (PP), com fama de linha-dura. Em 2022, o político paulista já havia baleado e matado um suspeito de tentar afanar outro Rolex dele. O fato não impediu Gabriel de buscar sua vez; em apenas 20 segundos, ele rendeu o parlamentar, retirou o aparelho de seu pulso e desapareceu.

No Departamento Estadual de Investigações Criminais, o Deic, o assalto reforçou o alerta entre os investigadores sobre uma onda de crimes do tipo. O delegado Clemente Castilhone Júnior, à frente de uma força-tarefa para encontrar mercadorias surrupiadas, afirma que marcas como Rolex e Patek Philippe são as mais visadas.

Segundo levantamento do jornal “O Globo”, entre 2023 e 2025, foram registrados 187 roubos de relógios luxuosos na capital paulista; 52 deles da grife Rolex, com a maioria dos casos fichados em delegacias de bairros de alto padrão, a exemplo de Itaim Bibi e Jardins.

Esse tipo de delito não é incomum, nem novo, mas existe uma dinâmica diferente na praça. Segundo Júnior, antigamente os ladrões vendiam os aparelhos a receptadores como joalherias, que misturavam artigos de origem desconhecida a produtos oficiais e réplicas para a venda. O esquema, entretanto, acabou ficando mais vigiado e apresentou falhas

Roubo de relógios de alto padrão pode levar peça até Ásia e Oriente Médio após roubo em São Paulo, afirma especialsita — Foto: Gui Albuquerque

Em 2022, por exemplo, meses após sofrer um assalto, um promotor de Justiça de São Paulo encontrou o próprio relógio roubado anunciado por R$ 90 mil no Instagram de uma butique localizada em um shopping de alto padrão. Ele acionou a polícia e mais de oitenta peças foram apreendidas. Os proprietários da loja passaram por investigação, mas alegaram à Justiça desconhecer a proveniência ilícita.

No fim de 2023, os agentes prenderam em Taboão da Serra um suspeito de roubar um Patek avaliado em R$ 1 milhão do pulso de um médico. Em agosto passado, outro ladrão foi detido portando relógios na periferia da capital. As ações interligadas renderam ao grupo envolvido o nome de Gangue do Rolex.

A reprimenda dos agentes acabou reestruturando a organização desses crimes. As joalherias também ficaram mais desconfiadas das ofertas de qualquer um que aparecesse à porta. Assim, os bandidos criaram núcleos com intermediários próprios e uma rede on-line de anúncios. “O criminoso não precisa mais nem sair de casa e se arriscar para revender o objeto roubado”, explica o delegado Júnior. Os larápios deixaram de circular para repassar os modelos por aí; basta cometer os roubos, tirar fotos diretamente de “bunkers” escondidos em regiões periféricas da Grande São Paulo e negociar com “atravessadores premium”, que passaram ainda a fornecer armamento, encomendar assaltos e receptar também joias e celulares das vítimas.

Em meio a essas movimentações, Gabriel Pedroza teria decidido roubar o relógio do Delegado Olim, que pode custar até R$ 70 mil. Tratava-se de uma edição limitada do Rolex Submariner verde, de aço, conhecido como “Hulk”, devolvido ao parlamentar. Embora a polícia tenha tratado a prisão como um acaso após uma ocorrência sobre documentos falsos, a GQ Brasil acessou a ficha do rapaz nascido em Taboão da Serra, que dizia que ele mirava relógios de luxo havia um bom tempo.
O Ministério Público de São Paulo atribui a ele, e a mais dois comparsas, o roubo de dois Rolex em um mesmo dia, em 2024, na cidade de Sorocaba, interior paulista. Somados, valem cerca de R$ 160 mil. Em nota, a defesa de Gabriel alega que o cliente foi denunciado em “um único roubo” e que aguarda o julgamento do caso. Em relação ao assalto a Olim, o rapaz foi condenado em novembro do ano passado a seis anos e oito meses em regime semiaberto.
O FATOR ROLEX
Casos como esse fazem parte de uma realidade internacional, seja em São Paulo, Rio, Paris, Londres, Dubai... Todos os anos, o The Watch Register contabiliza algo na faixa de 250 mil roubos de relógios no planeta. A instituição, criada para rastrear as cargas levadas, calcula que os produtos somaram um valor equivalente a R$ 10 bilhões em 2024. Na base da organização, estima-se que 40% dos relógios roubados sejam fabricados pela Rolex. Fundada em 1905, a empresa reina disparado no setor dos suíços, com mais de 30% do mercado mundial. O país europeu virou referência em relojoaria de ponta. De lá, saem peças criadas artesanalmente, com pedras e metais preciosos, de alta durabilidade e avanços tecnológicos sem precedentes.
A razão para determinadas marcas se tornarem mais valiosas no mercado ilegal do que outras é a popularidade e a dificuldade para exibir uma delas no próprio pulso. A Rolex, por exemplo, monta 1,1 milhão de relógios anualmente, de acordo com um relatório da Morgan Stanley e da LuxeConsult, mas não os vende para qualquer um. A companhia não revela sua quantidade exata de manufatura, mas garante verificar cada um dos artigos antes de comercializá-los, quando recebem um número de série único, similar ao de um chassi de carro.
A produção é considerada alta quando comparada à de casas concorrentes, a exemplo de Audemars Piguet e Patek Philippe, fabricantes de cerca de 50 mil a 60 mil relógios anuais, segundo o mesmo documento. Mesmo assim, a Rolex não dá conta da alta demanda. Durante a pandemia, a paralisação parcial nas fábricas tornou os relógios de luxo ainda mais cobiçados. A pausa das operações fez o mercado de segunda mão alcançar um ápice: em março de 2022, o preço médio dos cinquenta modelos mais procurados de relógios de luxo bateu em 45 mil euros, ou R$ 290 mil, segundo a Subdial, a principal plataforma de monitoramento do mercado relojoeiro no mundo. Isso significa que algumas peças chegaram a ser vendidas por até cinco vezes seu valor de mercado.
Mainha do Crime, uma das atravessadoras de peças de alto padrão, foi presa pela Polícia Civil de São Paulo — Foto: Reprodução/Polícia Civil
Além disso, o número de revendedores autorizados da Rolex é limitado — e nada de venda on-line. Em São Paulo capital, há cinco lojas oficiais. Não basta entrar em uma delas com o dinheiro na mão, especialmente se estiver em busca de edições limitadas e escassas. “Um tutorial engraçado na internet ensina: para conseguir um Rolex, o caminho é fazer amizade com o vendedor. Compre outras coisas antes. Não é algo escancarado, mas você não chega a uma butique e adquire um Daytona de aço. Você entra em uma fila”, explica o colecionador Carlos Barretti, criador da revista especializada "Pulso", que mantém a própria coleção de acessórios em casa.
Em 2008, ele foi assaltado em São Paulo e teve um Vostok, da Rússia, tomado. Por sorte e um toque de precaução, não carregava um de seus tesouros mais atraentes para o olhar de bandidos.
Outra caraterística que valoriza esses aparelhos é sua resistência. Modelos como Daytona ou Submariner de aço costumam durar mais tempo do que os próprios donos e acabam sendo transmitidos como herança de geração para geração. Em alguns casos, resistem a vários metros de profundidade embaixo d’água. “Eles nunca se desvalorizam”, afirma Barretti. “Para o ladrão, Rolex significa ter dinheiro certo na mão em qualquer lugar.”
QUESTÃO MUNDIAL
Baseada em Londres, Katya Hills, diretora do The Watch Register, afirma que os aparelhos podem ir parar a milhares de quilômetros de onde foram retirados. A instituição mantém uma base pública de dados com o número de série de modelos roubados a fim de alertar autoridades, revendedores e compradores. As informações são enviadas por proprietários, investigadores e lojas do setor.
Caso o código do relógio pesquisado bata com algum inscrito no site, as autoridades são acionadas e, se recuperado, o objeto é devolvido ao proprietário. Segundo Katya, cerca de 30% deles seguem para mercados estrangeiros, e a maior parte das denúncias vem de Hong Kong.
“Os relojoeiros de lá têm experiência em negociações internacionais, falam inglês e se mostram propensos a nos acionar quando recebem ofertas de um vendedor, digamos, dos Estados Unidos”, conta Katya. Nos últimos anos, ela calcula um aumento de modelos surrupiados que viajaram para países como Paquistão, Tailândia, Taiwan e Turquia, de onde foram despachados para compradores em Dubai.
Um exemplo internacional foi registrado no Brasil quando o Deic desbaratou uma quadrilha em São Paulo. Em dezembro de 2024, após dois anos de investigações, um comissário brasileiro de uma companhia aérea americana foi preso por contrabandear relógios em seu pulso para os Estados Unidos. Ele contava com a ajuda de um taxista que tinha contatos com receptadores e agia em troca de comissão. A entrega da mercadoria era realizada no saguão de embarque do aeroporto. “Mesmo que (ladrões e receptadores) recebam 50% do valor da peça, ainda vale a pena para eles”, pontua Katya.
As pedras e minérios preciosos presentes nos relógios roubados não são retirados ou derretidos, como ocorre com alianças, correntes ou anéis. O objetivo é mantê-los intactos a fim de reter seu valor em uma transação ilegal. Assim, para recuperar o acessório, é essencial manter seu certificado de compra e o número de série — e até mesmo a embalagem — para entregar essas informações à polícia em caso de roubo. Também devem ser registrados os dados na plataforma The Watch Register após um crime, para, assim, tentar buscar o tempo perdido.
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